expressão voluntária

sábado, dezembro 16, 2006

É impressionante a percepção da efemeridade das coisas. Ainda ontem, ali no jardim que cercava a casa onde morei, havia uma castanheira que acompanhou meu crescimento por longo tempo. A coitada teve vida curta, foi esquartejada pelo meu pai antes mesmo de se tornar árvore vigorosa, cheia de pompa. Acontece que semelhante ao que ocorreu comigo, a “menina” (sempre tive a impressão de as árvores possuírem um quê feminino) cresceu e passou a incomodar. Sujava por demais o espaço que ocupava com todas aquelas castanhas, rígidas e desconfortáveis ao pé descalço. Vulnerável, a pobre da planta não suportou os golpes de machado que irromperam sobre seu tronco, seus galhos, sua vida. Foi-se, e exceto pra mim, não faz qualquer diferença. Também meu avô caminhou para o mesmo destino. O velho, um dia fora jovem, forte e robusto, cheio de coragem. Disse-me um dia seu filho, meu pai, que o homem não era pouca bosta. Sempre disposto a se impor, adquiriu tez bem séria, relevante até. Nasceu em berço bem pobre, e ao que tudo indica, além da falta de luxo, faltou-lhe também o amor. Já idoso tornou-se meu avô. O neto lhe agradara, mas a personalidade de homem macho, que confundia-se frequentemente com estupidez e grosseria, não lhe permitia o afeto explícito. Um dia se aproximou trazendo uma caixa de bombons vazia, na qual guardou durante anos toda gama de trecos (botões, agulhas de costura, tubos de linha) e sentou-se ao meu lado. Havia reparado que a criança ali brincava com um “motorzinho” à pilha e que a coisa só fazia girar um suporte metálico, sem qualquer utilidade. Astuto, percebeu que dali poderia sair uma hélice. Então recortou a caixa que a tanto o acompanhava nas tarefas do dia-a-dia. Talhou uma hélice muito bem feita no papel espesso da caixa, encaixou no tal suporte e entregou dizendo: “pra você, nunca te dei nada.” De fato, nunca havia me presenteado. Gesto bonito do cara, nunca me esqueci. Pouco tempo depois um derrame acometeu-lhe e passou a viver preso a uma cama. O homem enérgico que fora desapareceu. Durante anos agonizou e dependeu de cuidados diversos. Como a castanheira, morreu. Sua falta foi sentida com maior intensidade pela companheira, minha avó, a mesma que agrediu por toda a vida, que chifrou por toda a vida. O tempo, imutável, deixou-lhes, homem e árvore, enraizados no passado. Não voltam mais. A transitoriedade de tudo é um enigma, ninguém entende o porquê da vida insistir sempre em acabar. Simplesmente surge, mostra-se, e some.

terça-feira, dezembro 05, 2006

“Nasa planeja construir base permanente na Lua”, e daí?

Quando ouvimos termos que remetem à tecnologia espacial, logo nos lembramos da Nasa – gigante do setor, a maior e a mais notável há décadas – e ficamos contentes com a percepção de que o ser humano é de fato um ser incrível, com poderes galácticos. A nostalgia daquele 1967 ainda é contagiante, que belo, que estupendo chegarmos até a lua. Fora o acontecido mais uma manobra estratégica entre as várias ocorridas durante a quentíssima “Guerra Fria”, e a não ser a poderosa nação norte americana, ninguém mais lucrou com o êxito da missão. Contudo, enquanto o evento astronômico (em sentidos diversos) ocorria, homens, mulheres, jovens e crianças de todo o mundo ficavam paralisados frente à TV, embasbacados com o que viam. No dia seguinte ao sonho vivido, o pão continuava a ser escasso, a vida permanecia difícil, a miséria injustificável ainda era latente e o mundo não mudara, embora a lua ganhasse um nobre enfeite. Neste ponto, uma constatação. O Primeiro Mundo entende o desenvolvimento científico como preterível em relação ao humano. Os gastos com pesquisas cosmológicas superam qualquer subsídio à países periféricos. Nossa inquieta África, berço de civilizações antiqüíssimas, permanece em transe, cada vez mais doente e fraca, implorando por ajuda, por compaixão, por comida. A pólvora tempera um ambiente de conflitos, guerras, morte e incompreensão. A desorganização civil continua seu convívio cego com governos corruptos e escarnecedores. Ruandenses, etíopes, toda sorte de nativos da negra África Sub-saariana, em sua esmagadora maioria, não se situam em qualquer patamar que indique alguma dignidade.
Em meio ao caos, o ser humano ocidental parece não considerar os africanos como sendo de sua mesma espécie. E agora anuncia um plano de proporção considerável em relação ao progresso da exploração do espaço. Aqueles bilhões de dólares que poderiam humanizar e trazer algum alívio a milhões de seres humanos, serão utilizados para construção de uma base lunar. O homem olha para o espaço, e parece ignorar o que acontece bem ao seu lado. È inacreditável a forma como o ser humano perdeu a noção de solidariedade e compaixão quando um grupo de pessoas passou a conviver com a mesma noção de nacionalidade. Além das fronteiras da cultura, da etnia, da língua, existe um ponto de congruência entre todos os seres humanos da Terra. Mas é indiferente, afinal de contas, o capitalismo é mesmo selvagem.